
Delegações da Ucrânia, da Rússia e dos Estados Unidos se reúnem novamente nesta quarta-feira, 4, em Abu Dhabi para tentar avançar com as negociações de paz. Embora os inéditos encontros bilaterais, que começaram na semana passada, sejam vistos como positivos, as expectativas de avanço são baixas. Várias rodadas de conversas entre as partes não conseguiram alcançar um acordo para encerrar o conflito mais letal na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, que completará quatro anos no fim deste mês.
“Outra rodada de negociações começou em Abu Dhabi com o objetivo de conseguir uma paz justa e duradoura”, publicou nas redes sociais o chefe do Conselho de Segurança, Rustem Umerov, que lidera a delegação ucraniana.
O principal obstáculo continua sendo o destino do território do leste da Ucrânia a longo prazo.
Moscou exige que Kiev retire suas forças de grande parte da região do Donbas, incluindo áreas ricas em recursos naturais, como requisito para qualquer acordo. Também deseja o reconhecimento internacional de que as terras tomadas na invasão pertencem à Rússia.
A Ucrânia, por sua vez, insiste que o conflito deveria ser congelado nas atuais linhas da frente de batalha e rejeita a retirada unilateral de suas forças.
Nesta quarta, o Kremlin insistiu que prosseguirá com a ofensiva até que a Ucrânia aceite suas condições. “Enquanto o regime de Kiev não tomar a decisão adequada, a operação militar especial continuará”, declarou o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, usando o jargão do governo para referir-se à guerra.
Para negociar com Umerov, a Rússia enviou seu diretor de inteligência militar, Igor Kostiukov, um oficial da Marinha que é alvo de sanções dos países ocidentais por seu papel na invasão da Ucrânia. Já o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, despachou a Abu Dhabi seu enviado especial, Steve Witkoff, e seu genro Jared Kushner.
O impasse do território
A Rússia, que ocupa quase 20% do país vizinho, ameaçou tomar o restante da região de Donetsk em caso de fracasso do diálogo. A Ucrânia considera que ceder território estimularia Moscou e que não assinará um acordo que não desestimule a Rússia a voltar a invadir o país. Kiev ainda controla 20% da região de Donetsk.
De acordo com dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês) e do Critical Threats Project, dois think tanks americanos, Moscou acelerou avanços ao longo do mês de janeiro, capturando o dobro de território em comparação com dezembro. Ao todo, foram 481 km² conquistados em janeiro, contra 244 km² em dezembro de 2025 — um dos avanços mais significativos registrados em um mês de inverno desde o início da invasão ao país vizinho, em 2022.
Se continuar avançando no ritmo atual, o Exército russo levaria cerca de 18 meses para conquistar toda a região, segundo uma análise da agência de notícias AFP, embora as áreas que permanecem sob controle ucraniano incluam centros urbanos fortemente protegidos.
A Rússia também reivindica como suas as regiões de Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia. O país controla faixas territoriais em pelo menos outras três regiões do leste ucraniano.
A maioria dos ucranianos rejeita um acordo que conceda território a Moscou em troca de paz, segundo pesquisas de opinião, e muitos consideram inconcebível ceder áreas que seus soldados estão defendendo há vários anos.
No campo de batalha, a Rússia avança com as mortes de muitos soldados, com a intenção de desgastar o Exército ucraniano. Na terça-feira, ataques do país mataram três pessoas na região de Zaporizhzhia e outras duas em Dnipropetrovsk, no leste da Ucrânia. Também foram registrados bombardeios em Odessa, no sul, que não deixaram vítimas fatais, mas que provocaram danos significativos em prédios residenciais, duas creches e uma escola.
Pressão
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, vem aumentando os apelos a aliados ocidentais por mais armas (em especial mísseis de defesa), assim como pedidos por mais pressão econômica e política sobre o Kremlin.
Centenas de milhares de ucranianos sofrem com cortes recorrentes de aquecimento e energia elétrica em Kiev devido aos bombardeios russos em larga escala, que provocaram danos significativos à rede da capital.
Diante da primeira rodada de negociações de janeiro em Abu Dhabi, o governo de Vladimir Putin interrompeu no último fim de semana os ataques a Kiev, a pedido de Trump, mas retomou sua ofensiva com uma salva recorde de mísseis e drones na terça-feira. Em seguida, cidadãos ucranianos expressaram ceticismo sobre a possibilidade de assinatura de um acordo com a Rússia.
“Acho que é tudo um espetáculo para o público”, disse Petro, um morador de Kiev, à AFP. “Devemos nos preparar para o pior e esperar o melhor”, concluiu.
