
Produtor musical Breno Machado analisa como a IA deixou de ser tendência e passou a integrar, de forma prática, o processo criativo e técnico da produção musical.
Enquanto a discussão genérica sobre IA circula por todas as áreas, a transformação real acontece em campos específicos e dentro da produção musical não é diferente. 2025 foi o ano em que a intervenção artificial na criação de músicas virou rotina dentro dos estúdios, transformando e acelerando, consideravelmente, a forma como produtores, músicos e arranjadores trabalham.
Hoje, construir linhas melódicas, testar variações de arranjo, combinar timbres e analisar referências são tarefas que não exigem mais dias de experimentação. Podendo ser muito bem executadas, em minutos, com o uso da ferramenta adequada. Mas não se engane, o que o mercado precisa não é somente de bons administradores de plugins e prompts, de acordo com Breno Machado, o domínio da sensibilidade artística está longe de ser reproduzível pela tecnologia.
Produtor musical há mais de uma década, Breno Machado se tornou referência no mercado, transformando sua rotina de gravações locais em uma operação internacional de serviços, atendendo artistas, marcas e produtores de diversos países por meio de plataformas como Fiverr e Musiversal.
Confira nosso bate-papo sobre o uso de inteligência artificial no processo criativo e técnico da produção musical global.
Qual a maior contribuição da IA para o seu trabalho?
“A IA me ajuda a pensar fora da caixa. Se a gente sempre faz música só com aquilo que já está no nosso repertório mental, acabamos presos ao que conhecemos. Eu uso a IA como parceira, alguém com quem troco ideias, faço brainstorm, testo timbres e combinações pouco óbvias. Ela tem acesso a praticamente tudo o que já foi feito, então às vezes peço algo totalmente fora do comum. Teve um cliente que chegou com uma música country, e eu acabei criando uma guitarra com estética surf music por cima. Ele adorou. Esse tipo de resultado inesperado nasce justamente desse diálogo criativo com a IA.”
Quando uma música nasce dentro de um ambiente assistido por IA, muda o papel do produtor?
“Eu vejo muitos artistas, compositores e cantores avançarem muito com suas músicas de forma independente usando IA, sem depender de um produtor desde o primeiro passo. Eles só chamam o produtor quando a música já está encaminhada, e isso muda tudo. Quando o produtor recebe algo completamente do zero, ele gasta tempo, energia e carisma para transformar aquela ideia em algo apenas ‘bom’. Mas quando a música já chega estruturada, mesmo que ainda crua, o produtor pode se dedicar ao que realmente faz diferença: elevar a obra. A partir desse ponto, dá para explorar técnicas menos óbvias, propor soluções mais criativas e dar uma identidade única ao projeto. O resultado deixa de ser apenas uma track pronta para lançar e vira uma música excelente, com personalidade, visão e acabamento.”
Quais ferramentas de IA você mais usa e para que elas servem?
“A ferramenta que eu uso quase todo dia é a de separação de stems. Ela me permite isolar instrumentos de uma música, não para copiar exatamente o que está lá, mas para entender cada elemento com clareza e criar minha própria interpretação, sem ser influenciado pela gravação original.
Isso agiliza muito, seja para analisar um baixo ou refazer uma guitarra, e facilita o aprendizado e a pré-produção. O objetivo não é substituir o músico, mas tornar o fluxo mais rápido e organizado.”
E o público geral? O que os seus clientes usam de IA antes de apresentar a música para você?
“Meus clientes usam IA principalmente para gerar prévias rápidas: gravam algo simples, tipo voz e violão, e colocam em ferramentas como Sundo ou Yurio, que devolvem uma pré-produção. Nem sempre fica perfeito, mas já dá um ponto de partida e motiva a desenvolver a música de verdade. Antes disso, o processo era parecido, só que bem mais demorado. Com IA ficou muito mais rápido.”
O que você recomenda para quem quer evoluir na produção musical em 2026?
“Tenham poucas e boas ferramentas. Não adianta ter dezenas de plugins ou instrumentos se você não domina nenhum deles. Durante grande parte da minha carreira usei uma única guitarra, e isso não me limitou, pelo contrário, me fez extrair o máximo do que eu tinha.
O excesso de opções paralisa. O domínio aprofunda. Estude o que você já possui e mostre sua evolução ao público, sem medo de expor imperfeições. É assim que você cresce.
Sobre IA, o ponto não é substituir nada: é encontrar formas de integrar. Talvez você não sinta a “falta” dela agora, mas quando implementar, vai perceber que seu processo acelera e seu resultado melhora.”
À medida que 2025 encerra um ciclo marcado pela consolidação da IA nos estúdios, o cenário aponta para um 2026 em que a tecnologia deve deixar de ser novidade e se tornar infraestrutura básica da criação musical.
Para Breno Machado, o próximo ano será menos sobre aprender novas ferramentas e mais sobre entender como integrá-las com profundidade. Em um mercado cada vez mais acelerado, o futuro pertence a quem usa a IA para abrir caminhos e não para substituir o que só a musicalidade humana é capaz de entregar.
Ana Galo | ETC Comunicação 48 98807-6439 [email protected] https://www.linkedin.com/in/anacristinagalo/
