
Um novo relatório da ONG Human Rights Watch, divulgado nesta quarta-feira, 4, revelou que 72% da população mundial vive sob regimes autoritários, níveis inéditos desde a década de 1980, e atribuiu às ações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a aceleração de uma “recessão democrática”.
A análise faz parte do relatório mundial de 2026 no qual a ONG analisa a situação dos direitos humanos em mais de cem países.
“A democracia está agora de volta aos níveis de 1985, de acordo com alguns estudos, com 72% da população mundial vivendo atualmente sob regimes autoritários. A Rússia e a China são menos livres hoje do que há 20 anos. E também os Estados Unidos”, disse a Human Rights Watch.
O documento também fez um apelo às democracias, incluindo o Reino Unido, a União Europeia e o Canadá, para que formem uma aliança estratégica a fim de preservar a ordem internacional baseada em regras, que diz estar ameaçada por Trump, Moscou e Pequim.
“O sistema que sustenta os direitos humanos está em perigo”, afirmou Philippe Bolopion, diretor executivo da ONG, durante discurso antes do lançamento da pesquisa. Segundo ele, a onda autoritária será “o desafio de uma geração”. Segundo ele, uma aliança de democracias poderia se tornar uma “força poderosa” e um “bloco econômico substancial”, com poder potencial em votações nas Nações Unidas.
Bolopion afirmou que 2025 foi um “ponto de inflexão” para os direitos e liberdades nos Estados Unidos. Em apenas doze meses, o governo Trump realizou um amplo ataque a pilares fundamentais da democracia americana e da ordem internacional baseada em regras, que os americanos, apesar de erros, ajudaram a estabelecer.
Agora, o país está agindo na “direção oposta”, disse ele, citando como exemplo os apelos do ocupante do Salão Oval para que os republicanos “nacionalizem” o sistema eleitoral dos Estados Unidos e as revelações de que um membro da família real dos Emirados Árabes Unidos esteve por trás de um investimento de US$ 500 milhões na empresa de criptomoedas da família Trump.
EUA em foco no levantamento
O relatório da HRW cataloga ataques ao sistema baseado em direitos durante o segundo mandato de Trump. Esses ataques incluem minar a confiança nas eleições, reduzir a responsabilidade e prestação de contas do governo, atacar a independência judicial e usar o poder presidencial para intimidar oponentes políticos, a imprensa, escritórios de advocacia, universidades e a sociedade civil.
Abusos recentes, desde ataques à liberdade de expressão até a deportação de pessoas para países onde correm o risco de ser torturadas, ressaltam esse ataque ao Estado de Direito, afirmou a organização.
Em conjunto com os esforços de longa data da Rússia e da China para enfraquecer a ordem internacional baseada em regras, as ações do governo dos Estados Unidos tiveram enormes repercussões em todo o mundo, avaliou Bolopion.
“Sob pressão implacável de Trump, e persistentemente minada pela China e pela Rússia, a ordem internacional baseada em regras está sendo destruída, ameaçando levar consigo a estrutura na qual os defensores dos direitos humanos se apoiam para promover normas e proteger liberdades”, disse ele. “Trump se vangloriou de que não ‘precisa do direito internacional’ como restrição, apenas de sua ‘própria moralidade'”, alertou.
O relatório constata, porém, que a “recessão democrática” precede em décadas o retorno de Trump à Casa Branca. Esse fato somado a anos de fragilização da ordem internacional baseada em regras representou uma “tempestade perfeita” para os direitos humanos e as liberdades em todo o mundo, afirmou a ONG.
Brasil
Quando se trata de Brasil, o relatório da Human Rights Watch destaca um cenário de contrastes nos direitos humanos, onde avanços em políticas ambientais e proteção digital convivem com a persistência da violência policial e ameaças às instituições democráticas. No campo da defesa da democracia, a ONG diagnostica que o país avançou na responsabilização pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, com centenas de condenações, enquanto a polícia apresentou acusações formais contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e aliados por planejarem um golpe de Estado. Contudo, a transparência pública enfrentou obstáculos, como o uso de sigilos de 100 anos pelo governo federal e o controle de uma parcela significativa do orçamento discricionário pelo Congresso sem regras claras (as famosas emendas parlamentares).
A segurança pública e a letalidade policial continuam sendo problemas críticos, com as forças de segurança matando mais de 4.500 pessoas até setembro de 2024, das quais mais de 80% eram negras. O estado de São Paulo registrou um aumento dramático de 55% nessas mortes, contrastando com a redução observada no Rio de Janeiro. Além disso, o sistema prisional sofre com uma superlotação 37% acima de sua capacidade, apresentando condições insalubres e casos de tortura. No âmbito do Judiciário, o STF tomou decisões importantes, como a descriminalização do porte de maconha para uso pessoal e a proteção de jornalistas contra o assédio judicial, embora a suspensão da plataforma X (ex-Twitter) por cinco semanas tenha gerado debates sobre o impacto na liberdade de expressão.
Na pauta socioambiental, o governo Lula obteve sucesso ao reduzir o desmatamento na Amazônia em 31%, mas o país enfrentou a pior seca de sua história e incêndios recordes agravados pela crise climática. Apesar do progresso na demarcação de terras indígenas, o setor do agronegócio no Congresso segue impulsionando a tese do “marco temporal”, e a violência contra defensores da terra resultou em diversos assassinatos. O relatório também critica a contradição entre o discurso ambiental e os planos de investir bilhões de dólares em combustíveis fósseis.
Por fim, a violência de gênero e os direitos das minorias apresentam dados alarmantes: cerca de 3.000 mulheres foram mortas e mais de 50.000 estupros foram registrados nos primeiros nove meses de 2024, com meninas negras sendo as principais vítimas. No setor de direitos digitais, houve avanços na proteção de crianças, mas o uso de inteligência artificial para criar deepfakes pornográficos de menores emergiu como uma nova e grave ameaça. O documento ainda aponta disparidades raciais persistentes na educação e a falta de medidas concretas para a desinstitucionalização de milhares de pessoas com deficiência que vivem confinadas.
