
A organização humanitária Human Rights Watch apontou o Brasil como um ator central para uma aliança global em resposta à postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em seu 36º Relatório Mundial de Direitos Humanos, divulgado nesta quarta-feira, 4, a ONG afirmou que a ascensão do líder americano acelerou um processo de erosão da democracia global e da ordem internacional regida por leis.
“O sistema global de direitos humanos está em perigo”, resumiu o diretor-adjunto da organização, Philippe Bolopion, em comunicado. “Sob pressão implacável do presidente Trump, e persistentemente minada por China e Rússia, a ordem internacional está sendo destruída.”
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Como resposta ao cenário, a Human Rights Watch defende a criação de uma aliança internacional de países comprometidos com os direitos fundamentais. Além do Brasil, aponta atores como Canadá, Japão, Austrália, Reino Unido e Estados-membros da União Europeia como integrantes centrais dessa nova coalizão.
Segundo a ONG, o novo grupo internacional deveria incluir acordos comerciais e de segurança vinculados ao respeito aos direitos humanos. Além disso, a Human Rights Watch destacou a importância de uma atuação coordenada da coalizão nas Nações Unidas para proteger mecanismos de responsabilização internacional.
“Quebrar a onda autoritária e defender os direitos humanos é um desafio geracional”, aponta a organização. Para eles, é necessária uma “reação determinada, estratégica e coordenada dos eleitores, da sociedade civil, das instituições multilaterais e dos governos que respeitam os direitos humanos” para uma resistência eficaz.
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Recessão democrática
Embora a Human Rights Watch reconheça que o crescimento do autoritarismo global é uma tendência posterior ao segundo mandato de Trump, o relatório aponta que o retorno do mandatário à Casa Branca acelerou o processo. A pesquisa demonstra como ele destruiu programas de assistência alimentar, minou reparações por danos raciais e utilizou o cargo para intimidar opositores políticos, entre outras ações questionáveis.
Sob a administração trumpista, os Estados Unidos se uniram à China e à Rússia no desprezo a normas internacionais e mecanismos de responsabilização, acendendo um sinal de alerta. O documento define 2025 como um ponto de virada, com Pequim e Moscou “menos livres” do que há 20 anos, e Washington promovendo ataques às bases de sua própria democracia.
O cenário decadente também é visto nos números: de acordo com a Human Rights Watch, 72% da população mundial vive sob regimes autoritários, uma regressão a patamares de 1985. Entre quase 200 países listados, somente 75 são apontados como regimes democráticos confiáveis.
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Violações
De acordo com o relatório da HRW, Trump tem promovido uma série de “graves violações” desde que tomou posse como presidente. O republicano tem adotado políticas e retórica alinhadas a uma ideologia nacionalista branca, apontando que ele “se apoia em estereótipos racistas para classificar populações inteiras como indesejáveis nos Estados Unidos”.
Outra questão de destaque é a infame cruzada anti-imigração de Trump. Liderada pelo ICE, a temida polícia migratória americana, as ações levaram à morte de 32 imigrantes em 2025 e outros quatro este ano, o maior número em mais de duas décadas.
A ONG descreveu a forma de atuação dos agentes do ICE como excessiva, marcada por detenções ilegais e “assassinatos injustificados”, principalmente no estado de Minneapolis. Embora aponte que o presidente tem autoridade para administrar fronteiras, o documento destacou que é necessário respeitar o devido processo legal e não praticar maus-tratos ou discriminação.
Também há duras denúncias contra a política externa de Washington. Segundo o relatório, Trump vem usando uma lei de 1798, tradicionalmente reservada a tempos de guerra, para deportar centenas de venezuelanos para uma prisão em El Salvador, onde há relatos de tortura e abuso sexual. A condução da situação na Venezuela também é criticada, com a Human Rights Watch destacando os comentários do presidente sobre “governar” o país após a prisão de Nicolás Maduro.
“Apesar do discurso crítico a Caracas nas Nações Unidas, Trump tem trabalhado com o mesmo aparato repressivo venezuelano para promover os interesses dos Estados Unidos”, avaliou a ONG, apontando que “muitos aliados ocidentais optaram por permanecer em silêncio sobre essas medidas ilegais, talvez temendo tarifas erráticas e repercussões negativas para suas alianças”.
