sexta-feira, fevereiro 20

Transformando o ambiente de trabalho: a força conjunta da NR-1

Por Silvia Rezende**

Mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em um único ano no Brasil. Esse número impressionante revela uma realidade que pede atenção urgente — não apenas das empresas, mas de toda a sociedade. Em vez de buscar culpados, é hora de construir soluções conjuntas. A saúde mental no trabalho não pode mais ser vista como responsabilidade exclusiva do indivíduo, nem como um custo para o setor produtivo. Ela é, acima de tudo, um compromisso compartilhado.

Em 2025, o Brasil ultrapassou a marca de 4 milhões de licenças médicas por motivos relacionados à saúde mental. Ansiedade e depressão já são a segunda principal causa de afastamentos, atrás apenas das doenças da coluna. Esses dados refletem um ambiente profissional que, em muitos casos, deixou de ser espaço de realização e passou a ser fonte de sofrimento. Mas também apontam para uma oportunidade: transformar esse cenário por meio de ações integradas entre lideranças e equipes.

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que propõe a inclusão da saúde mental entre os itens fiscalizados nas empresas, surge como uma resposta estratégica e necessária. Longe de impor obrigações unilaterais, a NR-1 convida empresas e colaboradores a atuarem juntos na construção de ambientes mais saudáveis, acolhedores e produtivos. Trata-se de um processo de corresponsabilidade, em que todos ganham.

Ignorar essa norma não é apenas um risco legal — é abrir mão de uma chance real de evolução organizacional. Os R$ 3,5 bilhões em despesas do INSS com transtornos mentais são apenas a face visível de um problema que também afeta produtividade, engajamento e retenção de talentos. A NR-1 propõe medidas concretas: incluir a saúde mental no inventário de riscos, capacitar lideranças, criar canais de acolhimento e monitorar indicadores. São práticas baseadas em ciência, que fortalecem a cultura organizacional e promovem bem-estar coletivo.

É fundamental superar a visão de que o adoecimento psíquico é uma falha pessoal. Jornadas exaustivas, metas inalcançáveis, instabilidade e ausência de autonomia são fatores organizacionais que precisam ser reconhecidos e gerenciados. A NR-1 oferece ferramentas para isso — e cabe às empresas e aos colaboradores utilizá-las com maturidade e compromisso.

Ambientes que valorizam o equilíbrio emocional não apenas protegem seus profissionais, mas também se tornam mais resilientes e inovadores. A saúde mental, nesse contexto, deixa de ser um diferencial e passa a ser um pilar estratégico. O futuro do trabalho exige coragem para romper com modelos ultrapassados e construir relações mais humanas e sustentáveis.

A NR-1 aponta o caminho. O próximo passo é trilhá-lo juntos — com responsabilidade, empatia e visão de futuro.

 

**Silvia Rezende é graduada em Pedagogia e Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Silvia possui especialização em Terapia Comportamental Cognitiva em saúde mental pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Ela é a coordenadora técnica da Clínica de Psicologia LARES e professora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Silvia atua também como psicóloga colaboradora no IPQ HC FMUSP e no Programa de Psiquiatria Social e Cultural (PROSOL), um grupo do Instituto de Psiquiatria da FMUSP.

HEVER COSTA LIMA
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