quinta-feira, abril 2

Estratégia de Kassab: ganhar apoio dos evangélicos e impedir acesso de Lula às igrejas

Ao lançar sua pré-candidatura à presidência da República, na segunda-feira, 30 de março, em São Paulo, Ronaldo Caiado (PSD) recebeu o apoio do bispo Samuel Ferreira, o líder religioso à frente do Ministério Madureira, uma das maiores correntes da Assembléia de Deus.

O movimento tem dupla repercussão positiva para o ex-governador de Goiás. Além de obter a simpatia de uma das maiores lideranças evangélicas do Brasil, acabou com as esperanças de uma aproximação entre o presidente Lula e o segmento religioso que mais rejeita o atual governo.

Em outubro do ano passado, Samuel Ferreira foi recebido no Palácio de Planalto, em uma visita articulada pelo Advogado-Geral da União, Jorge Messias. O encontro em tom amigável girou em torno da indicação de Messias para o Supremo Tribunal Federal, que conta com a simpatia das lideranças cristãs pelo fato de o AGU ser um fervoroso protestante da corrente Batista.

O apoio do bispo ao PSD de Gilberto Kassab, a quem Ferreira se refere como sendo seu “líder político” e um verdadeiro “mago da política brasileira” praticamente sepulta as pretensões petistas de contar com “certa neutralidade” de lideranças evangélicas no púlpito. O pedido para “pelo menos não criticar o PT” chegou a ser levado aos pastores que mantém interlocução com crentes petistas.

“Onde chegar nossa influência estaremos juntos dos milhões de pessoas que frequentam nossos cultos, dentro daquilo que a legislação permite, do lado de fora dos templos, conversando com o povo evangélico, que saberá reconhecer quem é Caiado”, disse Samuel Ferreira, em vídeo apresentado na convenção e pubicado no Instagram. “À frente meu candidato”, completou.

O poder de fogo de Ferreira é imenso. Ele comanda a poderosa Convenção Nacional da Assembleia de Deus no Brasil, maior denominação do país, com alta capilaridade no território Nacional. Ao todo, a entidade conta com 42 000 templos, 102 000 pastores e milhões de membros.

Em encontros com seus colegas, Ferreira costuma promover palestras dos candidatos à presidência da República e costuma atender aos pedidos de políticos de diversos matizes ideológicos. Sua postura democrática é reconhecida por seus pares. A sinalização pela preferência pessoal do bispo, antes mesmo da campanha começar, sinaliza, no entanto, que a principal ala da Assembleia já fez sua escolha e que deve ser seguido por muita gente.

No anúncio da pré-candidatura, o deputado federal e pastor Otoni de Paula, que deixou o MDB para se filiar ao PSD, deu o tom da campanha junto ao rebanho: “A candidatura será uma opção de equilíbrio, não apenas para o Brasil, mas também para o segmento evangélico nesse país. Caiado será como um bálsamo para nós evangélicos. Viajearei do Oiapoque ao Chuí para dizer ‘chega de guerra dentro da igreja’.

Ex-bolsonarista ferrenho, Otoni chegou a se reunir com o presidente Lula no ano passado, com quem orou. Os dois vinham se aproximando depois que o deputado rompeu com o PL no Rio de Janeiro, seu estado natal. Otoni queria se lançar à prefeitura da capital com apoio do clã bolsonaro, mas foi preterido por Alexandre Ramagem.

Em outubro, no âmbito local, dará apoio a Eduardo Paes, também do PSD, que disputa o governo do estado com apoio do PT.