segunda-feira, março 16

Mudanças na Venezuela pós queda de Maduro: impacto da abertura econômica e influência dos EUA

A maioria das grandes mudanças na história com H maiúsculo caminha a passos lentos, mas há certas datas que marcam um “antes” e um “depois”. A queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, acionou as engrenagens da Revolução Francesa e fez soprar pelo globo ventos de liberdade. Em 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim veio abaixo para marcar o fim da Guerra Fria, que havia deixado o planeta à beira do precipício. Os ataques de 11 setembro de 2001 foram um abalo sísmico imediato e permanente na agenda de segurança internacional. O tempo dirá, mas 3 de janeiro de 2026 pode entrar para o mesmo rol.

Naquela madrugada, em meio a bombas que caíam em Caracas, Nicolás Maduro foi deposto pelas Forças Armadas americanas e logo levado para Nova York junto à esposa, Cilia Flores, para ser julgado por tráfico de drogas. A queda do ditador que por doze anos estrangulou com punho de ferro a população venezuelana produziu alívio imediato entre aqueles que sentiam estar em um beco sem saída, encurralados pelo líder chavista. Mas também teve efeitos incertos.

Passado um mês, o país opera agora nas mãos de Delcy Rodríguez, a ex-vice-presidente que, sob pressão, lidera as mudanças exigidas pelo presidente americano, Donald Trump, ao mesmo tempo em que mantém viva a retórica chavista. O panorama certamente mudou na Venezuela sem Maduro, com aproximação de Washington, abertura do setor petroleiro e a promessa de uma anistia geral que beneficia presos políticos. Mas o que mudou efetivamente?

Estabilidade tutelada

Trump ordenou o bombardeio que resultou na captura de Maduro e na morte de quase 100 pessoas, entre civis e militares. No entanto, evitou uma ruptura completa, ao contrário de intervenções anteriores dos Estados Unidos em países como o Iraque.

Rodríguez mantém o chavismo no poder, embora sob a influência de Washington. É uma “estabilidade tutelada”, avaliou Guillermo Tell Aveledo, professor de Estudos Políticos da Universidade Metropolitana, em entrevista à agência de notícias AFP.

Trump chamou Rodríguez de “formidável” e a convidou para uma visita à Casa Branca, em data ainda indefinida. “Tudo está indo muito bem com a Venezuela”, afirmou ele em 14 de janeiro, após o primeiro telefonema entre os dois.

Os dois países também avançam na retomada das relações, rompidas por Maduro em 2019, embora o secretário de Estado americano, Marco Rubio, tenha alertado Rodríguez que ela poderia sofrer o mesmo destino de seu ex-chefe caso não se alinhe aos objetivos de Washington.

Na segunda-feira, Rodríguez recebeu a nova chefe da missão diplomática dos Estados Unidos, Laura Dogu, que enfatizou que a “transição” faz parte da agenda.

“Queremos uma Venezuela amigável, estável, próspera e democrática”, afirmou a americana em vídeo publicado no domingo, além de ter reiterado as “fases” apresentadas por Rubio sobre a Venezuela, que culminam em uma transição. A oposição tem insistido na exigência de uma mudança de governo por meio de eleições.

Abertura petroleira

A Venezuela aprovou nesta semana uma reforma em sua lei do petróleo, que, segundo analistas, teria sido determinada pelos Estados Unidos.

A legislação revoga efetivamente a nacionalização de 1976 e, principalmente, o modelo estatista imposto por Hugo Chávez 30 anos depois. Empresas privadas poderão operar de forma independente, em vez de como acionistas minoritários em parcerias com a estatal PDVSA. O plano de Trump é atrair empresas petroleiras americanas, como a Chevron, para investir na Venezuela.

A nova lei também flexibiliza as taxas de royalties e simplifica o pagamento de impostos. Além disso, elimina a exclusividade da exploração e da exploração primária.

“É a única maneira de obter investimentos significativos”, explicou o analista de petróleo Francisco Monaldi, professor nos Estados Unidos, à AFP.

Segundo especialistas, a Venezuela precisa de aproximadamente US$ 150 bilhões (cerca de R$ 788 bilhões) para revitalizar sua indústria, que foi duramente atingida por anos de corrupção e má gestão. Trump assumiu o controle de algumas das vendas de petróleo da Venezuela no mercado, sem os descontos obrigatórios pelo embargo que ele impôs em 2019. Ele realizou uma venda inicial que gerou US$ 500 milhões (R$ 2,62 bilhões) para o país.

Embora Rodríguez mantenha o discurso chavista para o público interno, ela é vista em Washington como mais pragmática. Além de vice-presidente, ela chefiava o Ministério dos Hidrocarbonetos, que sob sua liderança implementou reformas ortodoxas no setor e mecanismos de livre mercado para revitalizar a economia venezuelana — que, em frangalhos, é altamente dependente do petróleo.

Governo e propaganda

Rodríguez lidera o governo de Maduro de forma interina. No entanto, ela não convocou eleições após 30 dias de vacância do líder “eleito” (entre aspas, aqui, dadas as contundentes evidências de que a eleição de 2024 que teria dado a Maduro um novo mandato), como previsto pela Constituição do país.

Ao longo do último mês, Rodríguez substituiu ministros e oficiais de alta patente das Forças Armadas, embora Diosdado Cabello e Vladimir Padrino, os influentes ministros do Interior e da Defesa, respectivamente, permaneçam em seus cargos por enquanto.

“É uma fase de reajuste para um sistema que preferia não alterar sua hegemonia”, declarou Aveledo, da Universidade Metropolitana.

A reaproximação com os Estados Unidos contrasta com a retórica historicamente “anti-imperialista” do chavismo, que permeia as Forças Armadas. O partido governista organiza marchas quase diariamente para condenar o “sequestro” de Maduro e a televisão estatal transmite uma música cativante que exige sua libertação. Seu rosto e o de sua esposa foram exibidos em um show de luzes com drones no Forte Tiuna, o principal complexo militar do país, onde estavam hospedados na madrugada de 3 de janeiro, local que foi bombardeado durante a incursão americana.

Uma formação perfeita de drones também exibiu a transcrição de sua queixa no tribunal de Nova York, onde ele se declarou um “prisioneiro de guerra”.

Anistia e medo

Rodríguez declarou anistia geral, que o Parlamento precisa aprovar esta semana. Seu alcance, porém, ainda não está claro.

“Liberdade, liberdade!”, gritavam familiares de presos políticos do lado de fora das prisões quando receberam a notícia. De acordo com o partido Vente Venezuela, da líder oposicionista María Corina Machado, a população foi às ruas em 130 municípios no último final de semana para pedir pela soltura de seus parentes.

A líder interina também anunciou o fechamento do Helicoide, prisão denunciada há anos como um centro de torturas.

Presume-se que a anistia conced