
Os Estados Unidos e o Irã marcaram para esta sexta-feira, 6, uma reunião em Omã para negociações sobre um possível acordo de não-proliferação de armas nucleares. Enquanto Teerã sustenta que seu programa de enriquecimento de urânio tem fins puramente energéticos, Washington, bem como Israel e países europeus, acusam a nação persa de tentar desenvolver uma bomba atômica. As tratativas desta sexta vêm na esteira de uma série de ameaças do presidente Donald Trump sobre um ataque ao Irã caso a diplomacia falhe.
Nas últimas semanas, Trump despachou uma “enorme armada” ao Oriente Médio, liderada pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, e alertou que “coisas ruins” aconteceriam caso um acordo não fosse alcançado. Na terça-feira 3, as tensões na região aumentaram depois que o porta-aviões abateu um drone que teria se aproximado de forma “agressiva” da embarcação, além do Comando Central das Forças Armadas americanas ter acusado navios da Guarda Revolucionária Islâmica de “importunarem” um petroleiro de bandeira dos Estados Unidos no Estreito de Ormuz.
A reunião desta sexta deve ocorrer em Omã, e não na Turquia, como discutido inicialmente. A mudança ocorreu a pedido do Irã, que, segundo informações da agência de notícias Reuters, quer que as tratativas sejam uma continuação das rodadas anteriores de conversas realizadas no mesmo país do Golfo. Assim, evitaria que as discussões se expandissem para abarcar não apenas restrições ao seu programa nuclear, mas também ao desenvolvimento de mísseis, de acordo com uma autoridade iraniana ouvida pela Reuters.
Washington quer colocar questões como essa na pauta, mas Teerã já alertou que não fará concessões em relação ao seu programa de mísseis balísticos — um dos maiores do Oriente Médio —, o que considera uma linha vermelha nas negociações. É com essas armas, aliás, que ameaçou retaliar em caso de um ataque dos Estados Unidos.
Apesar dos trancos e barrancos, Trump afirmou a repórteres na Casa Branca na terça-feira que “estamos negociando com eles agora”, sem dar mais detalhes. Uma fonte do governo americano disse à Reuters que o genro do presidente, Jared Kushner, deve participar das conversas em Omã, bem como o enviado especial Steve Witkoff e o chanceler iraniano, Abbas Araqchi. (Kushner e Witkoff estão nesta quarta em Abu Dhabi para tratativas com delegações da Rússia e da Ucrânia sobre a guerra no Leste Europeu.)
Ministros de vários outros países da região, incluindo Paquistão, Arábia Saudita, Catar, Egito e Emirados Árabes Unidos, também expressaram desejo de participar, mas a agência de notícias apurou que Teerã prefere apenas conversas bilaterais com os Estados Unidos.
Entre ameaças e diplomacia
Trump não detalhou publicamente o que busca em um possível acordo. Os pontos de negociação anteriores de seu governo incluíram a proibição do enriquecimento de urânio pelo Irã, restrições a mísseis balísticos de longo alcance e o fim do apoio iraniano à sua já enfraquecida rede de grupos armados no Oriente Médio. Anteriormente, Teerã indicou que todas as três exigências são violações inaceitáveis de sua soberania, mas entende-se que o maior obstáculo diz respeito aos mísseis.
Anteriormente, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, havia dito que não vai haver negociação com os Estados Unidos até as ameaças acabem. O chanceler também desmentiu Trump (que havia acusado o Irã de descartar tratativas), enfatizando que seu governo tentou fazer contato com Washington “várias vezes” por meio de telefonemas. Além disso, a missão do país nas Nações Unidas publicou no Facebook que se defenderia “como nunca antes” se pressionado.
Os Estados do Golfo – aliados de longa data dos Estados Unidos e sede de importantes bases americanas – têm pedido contenção, por temerem ser os primeiros alvos de uma retaliação iraniana.
A crise entre Estados Unidos e Irã, nutrida ao longo do ano passado com uma guerra aérea que envolveu ataques americanos contra instalações nucleares da nação persa, aumentou de tom diante da repressão promovida pelo governo iraniano contra protestos que tomaram o país desde o início do ano. As manifestações, motivadas inicialmente pelo derretimento da moeda local, o rial, e a crise inflacionária subsequente, cresceram e passaram a pedir o “fim da ditadura” e a deposição de Khamenei. No auge dos atos, Trump ameaçou intervir militarmente em prol dos manifestantes e chegou a dizer que a ajuda estava “a caminho”.
No entanto, as tensões enfraqueceram após as autoridades iranianas desistirem das execuções de manifestantes presos que estariam sendo planejadas. Na semana passada, o presidente americano disse que navios de guerra americanos estavam sendo enviados “por precaução” e que acompanhava de perto a situação no país. “Vamos ver o que acontece”, afirmou à época.
A liderança do Irã está cada vez mais preocupada com a possibilidade de um ataque dos Estados Unidos quebrar seu controle do poder, levando uma população já enfurecida de volta às ruas, de acordo com seis autoridades iranianas ouvidas pela Reuters. Em Omã, a prioridade deve ser evitar conflitos e reduzir a tensão.
