
Novamente seguimos a saga das drogas emagrecedoras. Nesse intrigante filme chamado “Sem Limites”, Eddie Morra (Bradley Cooper) busca o uso de medicamentos que potencializam sua inteligência para viver um mundo de sonhos. Ele não precisava, mas buscou esse caminho mais fácil. Viciou-se, prejudicou sua saúde, mas a dependência não o deixava se afastar.
Esta semana, notícias nos alertam sobre inflamações no pâncreas (pancreatite), levando a quadros graves e até à morte, tendo como provável causa a utilização das canetas para diabetes e obesidade. Estamos no início desse filme investigativo e vários suspeitos estão envolvidos, mas, de qualquer maneira, ele está entre os mais “assistidos”.
Esse grupo de medicamentos entrou nesse longa-metragem chamado obesidade e diabetes já faz tempo, e todas as críticas escritas em artigos científicos não têm demonstrado riscos maiores ao seu uso adequado. Mas, como em qualquer produção, temos muito mais figurantes (quem não precisa) do que atores principais (os que precisam).
Essas medicações têm indicações e ações específicas para portadores dessas doenças crônicas, e no “script” (bula) estão bem definidas todas as falas e capítulos. Mas, devido ao fato de ser um filme muito lucrativo, cinemas de todos os cantos tentam exibi-lo e vender seus ingressos (canetas). As condições de armazenamento, transporte, dosagem e higiene das instalações dessas salas (laboratórios) não estão nesse roteiro clandestino, e os figurantes buscam os “ingressos” até com cambistas. As consequências tornam-se confusas até para quaisquer “críticas” ou avaliações por parte das comunidades científicas e dos órgãos controladores.
O uso de álcool, por exemplo, e a presença de cálculos (pedras) na vesícula estão entre as causas mais comuns dessa pancreatite. Muitos que compram e estão obtendo esses tickets em bilheterias oficiais e não oficiais não fizeram nenhum teste ou avaliação, bem como não foram orientados, por exemplo, de que manter o hábito de beber nos camarins ou não avaliar se a vesícula tem cálculos pode potencializar o risco e levá-los a um final inadequado nessa saga.
Todo filme tem que ter um bom diretor — no caso, o médico — que conduzirá a avaliação de quais atores são adequados para esse papel, bem como fará as avaliações e o acompanhamento para que o filme seja um sucesso. Do contrário, sempre teremos o risco do fracasso. Produções independentes e de baixo orçamento não podem estar nessa película.
Essas medicações foram feitas para pessoas que realmente precisam delas, cujos órgãos-alvo, como o pâncreas, já são mais sensíveis e, por isso, precisam de um “diretor” acompanhando todas as cenas.
Por outro lado, muitos começam um capítulo e, quando acham que já emagreceram, deixam de participar do filme, voltando aos estúdios apenas quando engordam novamente. Não há estudos sobre como o organismo funciona com esse entra e sai das medicações. Sabemos que os receptores dessas drogas, assim como os espectadores, não gostam nada disso, ficam “zangados” e não são tão receptivos quando a droga volta ao palco.
As canetas participam, na verdade, de uma série e não de um filme. São de uso crônico e, até o momento, não foram feitas para termos um capítulo final. O uso é contínuo e, assim como as grandes produções, precisam permanentemente de avaliações e cuidados.
O episódio da pancreatite é dramático e grave, mas não se sabe, até o momento, quem é o autor desse crime: os “sem limites” pela beleza, a falta de conservação e transporte adequados, o falsário, o laboratório clandestino, o mau profissional de saúde ou o protagonista (a medicação oficial). Cabe aos detetives da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e às entidades médicas desvendarem esse mistério que, se seguisse o roteiro original, com astros autorizados pelo sindicato dos artistas, já teria descoberto o culpado.
