sexta-feira, fevereiro 13

Procuradora-geral dos EUA é acusada de encobrir escândalo de Epstein durante depoimento na Câmara

A procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, prestou depoimento perante a Comissão Judiciária da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira, 10, para discutir o caso Jeffrey Epstein. O depoimento aconteceu em meio à crescente pressão de republicanos e democratas em relação ao Departamento de Justiça devido à retenção de materiais no último lote de documentos divulgado em janeiro. A publicação dos arquivos foi realizada de forma desorganizada, expondo nomes, fotos e informações pessoais das vítimas do criminoso sexual.

Na audiência, Bondi expressou arrependimento pelo sofrimento causado às vítimas do abusador americano que cometeu suicídio na prisão em 2019, assim como de sua rede de contatos em diversas esferas de poder em diferentes países. Ela admitiu que o Departamento teve dificuldades para lidar com a grande quantidade de documentos dentro de um prazo apertado, e retirou as peças contestadas por conterem informações sobre as vítimas assim que o problema foi identificado.

Mais de 3 milhões de páginas de arquivos referentes à investigação de Epstein foram liberadas pelo Departamento de Justiça em 30 de janeiro, incluindo diversas fotos e vídeos. Inicialmente programada para 19 de janeiro, a divulgação dos documentos foi adiada após pressão do presidente americano, Donald Trump.

Uma vez divulgado, o lote chamou a atenção internacional ao expor indivíduos ricos e poderosos que mantiveram laços com Epstein mesmo após sua condenação, porém também gerou desconforto por não conter todos os documentos requisitados e por expor publicamente os dados pessoais das vítimas, incluindo endereços residenciais.

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Nos debates acalorados durante a audiência, Bondi se comprometeu a revelar os nomes dos homens que se correspondiam com Epstein e proteger as vítimas. Ela afirmou que qualquer nome censurado será revelado e que qualquer vítima cujo nome tenha sido divulgado sem censura deve informá-los para que a censura seja aplicada.

A Comissão Judiciária demonstrou grande frustração com a retenção de material pelo Departamento de Justiça, alegando que isso viola uma lei federal aprovada em novembro passado para garantir a divulgação de todos os arquivos. Enquanto o Departamento alega que as omissões foram devido ao sigilo profissional e garante ter sido transparente na divulgação dos documentos, os deputados sustentam que o departamento extrapolou as isenções permitidas pela legislação.

“Esse será o seu legado, a menos que haja mudanças rápidas. A senhora está conduzindo um enorme acobertamento do caso Epstein diretamente dentro do Departamento de Justiça”, criticou o deputado Jamie Raskin, principal membro do Partido Democrata no comitê. “A senhora está do lado dos infratores e está ignorando as vítimas”, acrescentou.

Problema antigo

O caso Epstein tem sido um desafio para a administração Trump desde o início de seu segundo mandato. No ano passado, o Departamento de Justiça chegou a decidir não divulgar novos materiais sobre a investigação, o que desencadeou uma reação furiosa até mesmo dos apoiadores do presidente, levando a uma mudança de postura.

Bondi tem sido alvo de críticas pela gestão do caso Epstein, com legisladores afirmando que o fiasco marcará seu mandato. Mesmo republicanos têm questionado a secretária, incluindo o deputado Thomas Massie, coautor da lei que obrigou o Departamento de Justiça a divulgar os arquivos, que a considerou contraditória sobre o assunto.

Embora os documentos tenham gerado grande repercussão, não resultaram em processos nos Estados Unidos, aumentando as críticas contra o Departamento de Justiça por parte de ativistas, vítimas e figuras de ambos os partidos. Autoridades concluíram que os documentos não incriminavam ninguém além de Epstein e sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, alimentando teorias de acobertamento.

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A brasileira Marina Lacerda, 37, que afirma ter sido abusada por Epstein aos 14 anos, demanda segurança e dignidade para ela e outras sobreviventes.

Repercussão global

Além das críticas, os documentos geraram reações em todo o mundo, levando a renúncias em vários países. Na França, o ex-ministro da Cultura Jack Lang renunciou ao cargo de chefe do Instituto Mundo Árabe após a polícia abrir uma investigação sobre seus vínculos financeiros com o criminoso sexual. O conselheiro de Segurança Nacional do premiê da Eslováquia, Miroslav Lajcak,, também renunciou após a divulgação de e-mails trocados entre ele e Epstein sobre mulheres jovens.

No Reino Unido, a descoberta de uma relação mais profunda do que se sabia anteriormente entre o ex-embaixador em Washington Peter Mandelson e o milionário americano abusador desencadeou uma crise no governo do primeiro-ministro Keir Starmer. Isso resultou nas renúncias do braço direito do primeiro-ministro e chefe de gabinete, Morgan McSweeney, e do chefe de comunicação de Downing Street, Tim Alan.

O ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor, destituído de sua mansão na propriedade real de Windsor após a divulgação de novos documentos que evidenciaram sua relação com Epstein, também foi alvo de atenção. Mesmo sendo retirado dos títulos oficiais de nobreza pelo irmão, o rei Charles III, fotos do filho de Elizabeth II ao lado de uma mulher no chão aceleraram seu processo de expulsão.