quinta-feira, agosto 13

Derrota de socialistas democráticos em Wisconsin revela desafios da esquerda nos EUA; saiba mais

A ala progressista do Partido Democrata, composta por uma geração vocal de indivíduos que se autodenominam abertamente como socialistas, tem mostrado um crescimento significativo. Desde o começo do ano, esses candidatos, em sua maioria jovens conectados nas redes sociais e com uma imagem de outsider, conquistaram mais de 35 primárias democráticas em disputas que vão desde a prefeitura de Washington, D.C. até assentos na Câmara dos Deputados em estados como Nova York, Filadélfia, Detroit e Denver.

No entanto, a força desse movimento está sendo colocada à prova. Na crucial eleição de Wisconsin, a candidata socialista Francesca Hong, ex-chef defensora de creches e merenda escolar gratuitas, foi surpreendentemente derrotada pelo centrista democrata David Crowley no dia 11 de outubro. A diferença foi mínima (0,4 ponto percentual, segundo as emissoras CNN, CBS e NBC), mas revelou as limitações da esquerda americana.

Hong, que liderava as pesquisas com uma vantagem confortável, fez um apelo por unidade dentro do Partido Democrata para enfrentar os republicanos nas próximas eleições de meio de mandato (midterms). Essas eleições, que ocorrerão em três meses, renovarão toda a Câmara dos Deputados e 35 das 100 cadeiras do Senado, além de diversos governadores e cargos estaduais importantes. Em seu discurso para os apoiadores na terça-feira, ela declarou: “Independentemente de quem esteja na cédula, vamos lutar juntos pela vitória”.

No entanto, a nova onda de candidatos progressistas tem causado divisões significativas dentro do partido. Assim como em outras partes do país, os democratas tradicionais realizaram um esforço concentrado (embora tardio) para barrar Hong em sua busca pela indicação. O atual governador Tony Evers ajudou Crowley em arrecadação de fundos e frequentemente alertou que a socialista teria menos chances contra o adversário republicano nas midterms, considerando que Wisconsin é um estado onde nenhum partido é predominante e as eleições costumam ser decididas por margens pequenas. Além disso, o estado nunca elegeu uma mulher ou uma socialista.

Crowley enfrentará o congressista Tom Tiffany, um republicano alinhado ao presidente Donald Trump, associado ao movimento conhecido como MAGA (Make America Great Again). Tiffany utilizou o rótulo “socialista” para desqualificar seus concorrentes como radicais. Trump mencionou o termo “comunista” ao menos 95 vezes desde junho passado, agrupando todos os democratas sob a etiqueta dos “lunáticos sem Deus”.

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“A vitória de Crowley foi uma reviravolta inesperada que demonstra a apreensão dos eleitores democratas quanto à viabilidade eleitoral de candidatos como Hong”, comentou Anthony Chergosky, cientista político da Universidade de Wisconsin-La Crosse, referindo-se à capacidade desses candidatos em vencer adversários republicanos nas eleições decisivas.

Candidata controversa

Muitos especialistas argumentam que será necessário observar se os socialistas americanos conseguem derrotar os republicanos nas eleições de novembro. Até agora, suas vitórias ocorreram majoritariamente em estados com forte inclinação democrática, exceto por algumas exceções notáveis como o médico muçulmano Abdul El-Sayed, que venceu sua rival centrista na semana passada para concorrer a uma vaga no Senado pelo estado swing de Michigan.

No entanto, alguns analistas sugerem que a dificuldade enfrentada pela esquerda americana pode estar mais relacionada à própria Hong do que ao movimento socialista em geral. Comparada aos influentes senadores como Bernie Sanders, de Vermont, e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York — ambos não endossaram sua candidatura — ela é considerada menos conhecida e articulada.

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A questão da viabilidade eleitoral pesa sobre esses candidatos progressistas. A ala liderada por Sanders e AOC busca demonstrar sua capacidade não apenas nas áreas onde são populares, mas também nos estados swing — algo que não tem conseguido desde 2016. À medida que Hong enfrentava dificuldades na campanha e concedia entrevistas confusas sobre suas opiniões passadas controversas (como propostas para “cancelar o Dia de Ação de Graças”, abolir prisões e cortar financiamentos para delegacias), Wisconsin deixou gradualmente de ser prioridade para esse grupo.

Ainda que tenha afirmado não ter intenção de implementar essas medidas extremas se eleita, Hong acabou trazendo à tona questões que muitos socialistas prefeririam ignorar. Atualmente, eles concentram esforços em propostas mais palatáveis relacionadas ao combate à inflação e redução do custo de vida — iniciativas que incluem creches gratuitas e transporte público acessível — buscando atrair especialmente trabalhadores e jovens eleitores.

Cabe destacar que tentam evitar discutir temas polêmicos que afastam muitos eleitores: o fim do apoio militar a Israel pela causa palestina; anistia para imigrantes indocumentados; ou reparações para descendentes africanos-escravizados. Por isso mesmo, mesmo entre os fiéis eleitores democratas menos de um terço se identifica com essa ala mais radical.

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A escolha dos eleitores em Wisconsin claramente refletiu a busca por um candidato capaz de derrotar Tiffany no embate contra os republicanos. Ao final das contas, Hong não conseguiu convencer sobre seu potencial.

Análises variáveis

Membros do DSA (Democratic Socialists of America), entidade representativa dos socialistas democráticos nos EUA, tentaram minimizar o impacto da derrota.

“O fato de termos sido competitivos numa primária em um estado tão importante é indicativo do nosso progresso na conquista de diferentes eleitorados pelo país”, afirmou Chanpreet Singh, líder do DSA em Seattle.

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No mesmo dia da derrota em Wisconsin, outros progressistas tiveram sucesso: em Minnesota, Peggy Flanagan superou sua rival moderada Angie Craig com 59% dos votos e será candidata para substituir a senadora Tina Smith.

Diferentemente do caso de Hong, Flanagan contou com apoios destacados como os do veterano Sanders e da senadora Elizabeth Warren. Enquanto isso, Craig recebia apoio daqueles que acreditavam que seu histórico sólido tornava-a uma opção mais segura nas próximas eleições.

No cenário incerto das eleições intermediárias vindouras, uma coisa parece certa: apesar dos desafios enfrentados pelo campo progressista dentro do partido democrático, eles continuam determinados a pressionar seus colegas.

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