
Encontro na Galeria Retina reuniu artista, curador, especialistas e representantes da comunidade para discutir memória, identidade e reconhecimento das trancistas
A exposição “Cabeça-Território, Raiz-Continente”, da artista visual Suelen Lima, promoveu no dia 27 de março uma roda de conversa que ampliou as reflexões propostas pela mostra. Realizado na Galeria Retina, o encontro reuniu público, artistas e convidadas para discutir o trançado como prática artística, território de memória e tecnologia ancestral.
A conversa contou com a participação de Suelen Lima; do curador Paulo Du’Sanctus; da artista visual, designer e cofundadora da Galeria Retina, Andrea Oliveira; da especialista em diversidade e inclusão, palestrante e fundadora do coletivo Meninas Mahin,, Ednusa Ribeiro; e de Leia Abadia, trancista e co-fundadora do salão Preta Brasileira. Ao longo do encontro, o público pôde aprofundar temas presentes na exposição, como identidade, diáspora africana, trabalho das trancistas e reconhecimento cultural.
Para Suelen Lima, a roda de conversa representou a continuidade natural de uma pesquisa que nasce no cotidiano do salão e se expande para o campo das artes visuais. A artista destacou que seu trabalho busca investigar como o trançado atravessou diferentes territórios ao longo da história.
“A minha pesquisa segue nesse caminho de entender o que aconteceu com o cabelo e com o trançado nos diferentes lugares por onde os povos africanos passaram. Esse processo de diáspora trouxe muitas transformações e ainda temos muito a mapear”, afirmou a artista.
Durante o encontro, Suelen também ressaltou que o trançado sempre esteve ligado a processos de resistência histórica. Segundo ela, as tranças foram usadas inclusive como forma de comunicação durante o período da escravidão, marcando rotas de fuga e encontros entre pessoas escravizadas.
“O trançado também foi uma tecnologia de comunicação. Muitas vezes os cabelos eram trançados com caminhos que indicavam rotas de fuga ou encontros. Isso mostra que houve resistência e inteligência coletiva nesse processo”, explicou.
O curador Paulo Du’Sanctus destacou que a exposição foi pensada a partir de diferentes tempos históricos, conectando períodos anteriores à colonização, o processo de escravidão e os desdobramentos contemporâneos dessas práticas culturais.
Segundo ele, compreender o trançado como linguagem artística é também reconhecer a potência histórica e política que atravessa os corpos negros. “Falar de trança é também falar de negação de apagamentos. Existe uma história marcada nos corpos, e o cabelo faz parte disso. Trazer esse tema para a arte é uma forma de recontar essas narrativas e reposicionar essas experiências dentro do campo artístico”, afirmou o curador.
A roda de conversa também trouxe o olhar de quem vive o trançado no cotidiano profissional. Para Leia Abadia, co-fundadora do salão Preta Brasileira, o reconhecimento cultural e institucional das trancistas ainda é recente, apesar de décadas de atuação dessas profissionais. “Muitas mulheres pretas sempre viveram desse ofício, sustentando suas famílias com o trançado, mas por muito tempo essa atividade não foi reconhecida oficialmente como profissão. Só recentemente conquistamos o registro da ocupação de trancista”, destacou .
A especialista em diversidade Ednusa Ribeiro reforçou o papel social do salão de beleza como espaço de cuidado, troca e fortalecimento comunitário entre mulheres negras. “O salão é um espaço de escuta e de acolhimento. Ali acontecem conversas, trocas e reflexões que muitas vezes não encontram espaço em outros lugares”, afirmou. Ela também ressaltou que iniciativas culturais como a exposição ajudam a ampliar o debate sobre identidade, ancestralidade e representatividade .
A repercussão da exposição também foi destacada por, Andrea Oliveira, que afirmou ter sido surpreendida pela resposta do público ao trabalho de Suelen Lima. “Em dois anos de galeria, nunca tivemos uma exposição que despertasse tanta curiosidade das pessoas. Muitas visitantes chegavam, fotografavam, se emocionavam e descobriam histórias que não conheciam”, comentou. Segundo ela, a mostra revelou a força estética e simbólica do gesto de trançar, unindo técnica, memória, afeto e continuidade cultural.
A roda de conversa marcou o encerramento da programação pública da exposição, consolidando um dos principais objetivos do projeto: provocar novas leituras sobre o trançado e ampliar seu reconhecimento como expressão artística e patrimônio cultural ligado à história e à experiência da diáspora africana.
Sobre Suelen Lima
Suelen Lima é artista visual brasileira, formada em Artes Visuais pela Faculdade Paulista de Artes. Sua pesquisa investiga o trançado como linguagem estética, política e ancestral, conectando práticas do cotidiano ao campo da arte contemporânea, com trabalhos que transitam entre pintura, escultura e instalação.
Também é trancista e cofundadora do salão Preta Brasileira, onde desenvolve parte de sua pesquisa a partir da vivência direta com o fazer e os saberes compartilhados no espaço.
Fernando Costa 11987350571 [email protected]
