
Aplicativos que comercializam alimentos prestes a vencer ou fora do padrão estético, empacotados em “kits surpresa”, expandiram-se no Brasil e contribuíram para reduzir perdas e gerar receita para estabelecimentos. A proposta combina desconto para o consumidor, aproveitamento de produtos que seriam descartados e uma fatia de comissão para a plataforma.
Como funciona
Padarias, supermercados e restaurantes anunciam, por preço fixo e com descontos relevantes, sacolas com itens que ainda podem ser consumidos, mas que estão próximos da validade ou não atendem critérios estéticos. Quem compra seleciona apenas o tipo de kit; o conteúdo exato não é escolhido. O aplicativo intermedeia a transação e recebe comissão sobre cada venda.
Exemplo de usuário
Em São Paulo, o publicitário Arthur Santana Domingues, 23 anos, usa o aplicativo da Food To Save para comprar sacolas de padarias locais com pães, bolos e salgados por menos da metade do preço. Ele descreve a experiência como divertida pela curiosidade sobre o conteúdo e gratificante quando a sacola traz muitos itens.
Food To Save no Brasil
A plataforma brasileira Food To Save, lançada em 2021, afirma ser a maior do tipo no país. Segundo a empresa, está presente em 14 Estados e mais de 100 cidades, conectando milhares de estabelecimentos a consumidores. O app é gratuito tanto para compradores quanto para vendedores, e o modelo de negócio é baseado em comissão. Redes como Cacau Show, St. Marche, Hortifruti Natural da Terra, Angeloni e Supernosso participam da iniciativa.
Impacto econômico e ambiental
A rede St. Marche entrou na plataforma em 2024 e, até setembro de 2025, vendeu mais de 84 mil sacolas surpresa, evitando R$ 2,7 milhões em perdas que, de outra forma, seriam descartadas. Dados divulgados pela Food To Save apontam que cerca de 4 mil toneladas de alimentos deixaram de ir para o lixo, 10 mil toneladas de CO₂ deixaram de ser emitidas, foram gerados R$ 30 milhões para parceiros e os consumidores economizaram R$ 110 milhões. A empresa compara esse impacto ao plantio de 1,6 milhão de árvores.
Contexto global e potencial de mercado
No exterior, modelos semelhantes já estão consolidados. O Too Good To Go, da Dinamarca, soma mais de 100 milhões de usuários em 19 países. No Reino Unido, o Olio promove trocas entre vizinhos; na Suécia, o Karma atua com restaurantes; e o Flashfood tem presença nos EUA e Canadá. Um estudo do Boston Consulting Group em parceria com a WWF estima que o mercado global de soluções contra o desperdício pode movimentar até US$ 700 bilhões até 2030.
Redes sociais e comportamento
Vídeos em redes como TikTok, mostrando a abertura das sacolas surpresa, ajudaram a popularizar o serviço entre públicos mais jovens. O brasileiro Weslley Pereira, que mora na Inglaterra, relatou economia superior a 50% em compras em apps do tipo, citando o exemplo de ter conseguido duas pizzas por menos de £4.
Limitações e necessidade de ações adicionais
Especialistas destacam que esses aplicativos atuam principalmente na ponta final da cadeia de abastecimento. Grande parte do desperdício ocorre na produção, transporte e armazenamento. Para ampliar os resultados, dizem, são necessárias políticas públicas, incentivos fiscais e integração com agricultores, feiras e centrais de abastecimento.
Dimensão do desperdício
De acordo com a FAO, um terço de toda a comida produzida no mundo é perdida ou desperdiçada, cerca de 1,3 bilhão de toneladas por ano. O desperdício contribui para a emissão de gases de efeito estufa e implica perda de recursos como água, solo, transporte, energia e trabalho humano.
O uso de aplicativos que vendem produtos próximos ao vencimento ilustra uma estratégia de mercado que reduz perdas, gera receita e oferece descontos aos consumidores, ao mesmo tempo em que aponta limitações para tratar o problema em outras etapas da cadeia produtiva.
Com informações de Fatosdesconhecidos
