
O executivo chileno Germán Naranjo Maldini, que está detido há dez dias após proferir declarações racistas em um voo da Latam vindo de São Paulo, foi dispensado de suas funções na empresa onde trabalhava, conforme noticiado pela mídia chilena na terça-feira, 19. A companhia de pescados Landes anunciou que a conduta do ex-gerente comercial foi considerada “extremamente grave” e “não reflete os valores da empresa”.
“Após completarmos a investigação interna iniciada no sábado, 16 de maio, e tendo o executivo sido afastado preventivamente de suas atividades no mesmo dia, informamos que Germán Naranjo Maldini não ocupa mais o cargo de gerente comercial da Landes”, indicou um comunicado interno distribuído aos colaboradores na segunda-feira, segundo informações do periódico chileno La Tercera.
Naranjo foi afastado preventivamente no último sábado, 16 de maio, quando a Landes deu início à sua apuração interna. A direção da empresa também expressou sua “preocupação” com as possíveis repercussões do episódio ocorrido no Brasil e se colocou “à disposição para dialogar com qualquer pessoa que necessitar de apoio”.
Contexto do incidente
No dia 10 de maio, o executivo foi preso no Aeroporto de Guarulhos após proferir ofensas racistas e homofóbicas contra um membro da equipe da Latam durante um voo com destino a Frankfurt. Ele foi encaminhado ao presídio local e enfrenta acusações por injúria racial, que podem resultar em pena de dois a cinco anos, podendo ser cumprida inicialmente no Brasil.
A situação foi filmada por outros passageiros. Nas imagens, Naranjo aparece em pé dentro do avião fazendo comentários como: “Ele é gay, contra mim. Eu não sou gay. Ele é gay. Não tenho problema com ele, mas ele tem problema comigo.” Um funcionário da Latam tentou intervir, mas o executivo continuou a proferir insultos: “Para mim, ser gay é um problema; pele negra… o cheiro dos negros, dos brasileiros”, enquanto tocava seu rosto. Quando lhe informaram que poderia ser retirado do avião, ele reagiu com ironia: “Que medo”, e disparou: “Não te conheço, negro, macaco… você é um macaco… macacos vivem em árvores”, acompanhando suas palavras com gestos imitando animais.
Conforme informações da Polícia Federal brasileira, a confusão teve início quando Naranjo tentou abrir uma das portas do avião durante o voo. A tripulação tentou contê-lo e foi nesse momento que começaram os xingamentos.
O advogado de Naranjo, Pedro Mollo, declarou ao canal Mega que seu cliente assistiu ao vídeo do incidente e afirmou não se lembrar dos acontecimentos. Ele expressou arrependimento pelo ocorrido.
“Infelizmente, ele não recorda o que aconteceu. Foi um ato impulsivo. Ele não estava plenamente consciente”, comentou Mollo, acrescentando que Naranjo está sob tratamento psicológico e faz uso de medicamentos para dormir; ele também não se recorda se havia consumido álcool.
A situação remete ao caso da turista argentina Agostina Páez, que passou dois meses detida no Rio de Janeiro. Em janeiro passado, ela se envolveu em uma discussão com funcionários de um bar sobre um erro na conta e acabou sendo gravada fazendo gestos e sons ofensivos relacionados a macacos. Em março seguinte, um habeas corpus garantiu sua liberdade mediante pagamento de fiança de cerca de US$ 20 mil enquanto o processo contra ela seguia.
Reações às ofensas
Naranjo estava viajando a trabalho para participar da Interzoo 2026, uma feira internacional do setor pet. Sua prisão ocorreu durante uma escala no Brasil. O ministro das Relações Exteriores do Chile, Francisco Pérez Mackenna, manifestou publicamente sua indignação em entrevista à Rádio Tele13: “Condeno veementemente o ocorrido; as palavras desse indivíduo são inaceitáveis”.
“Este assunto não diz respeito diretamente ao Ministério das Relações Exteriores; trata-se de uma questão pessoal. Contudo, evidentemente prestaremos toda assistência necessária para garantir que seus direitos sejam respeitados. Mas essa linha é bem definida; cabe à justiça brasileira lidar com isso”, acrescentou o chanceler.
A Latam divulgou uma nota sobre o episódio com o passageiro problemático durante o voo LA8070 e informou estar colaborando com as autoridades federais brasileiras devido à “conduta deplorável” apresentada por Naranjo. A companhia reiterou seu compromisso contra qualquer forma de violência ou discriminação.
Dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) revelam um aumento nos casos envolvendo passageiros indisciplinados: enquanto em 2021 houve um registro a cada 835 voos, já em 2024 esse índice subiu para um caso a cada 392 voos.
Histórico jurídico prévio
Informações veiculadas pelo canal Mega indicam que Naranjo possui dois processos ativos na justiça chilena. Um deles foi aberto em 2013 por ele ter relatado falsamente uma ameaça de bomba direcionada a muçulmanos em um hotel em Santiago; outro processo mais recente remonta a fevereiro deste ano e está relacionado a uma denúncia feita pelo Serviço Nacional de Registro Civil devido à sua postura autoritária perante os colaboradores.
No primeiro caso mencionado, Naranjo teria ido ao Cartório de Registro Civil em Lo Barnechea acompanhado por sua esposa para buscar o passaporte do filho menor e furou fila ao chegar lá. Ao ser informado sobre atrasos na entrega do documento, abordou uma funcionária sussurrando: “Quem eu tenho que pagar? Há três anos paguei Mario Patiño para agilizar isso”, conforme relatado pelo Mega.
Pouco depois disso, voltou ao balcão mostrando dinheiro e sugerindo: “Tome isso e vocês podem me entregar meu passaporte mais rápido”. A funcionária chamou seguranças enquanto ele gritava: “Socorro! Estão me pedindo dinheiro para acelerar meu passaporte!”
No outro incidente registrado em agosto de 2013 no Hotel W em Santiago, Naranjo chegou acompanhado por uma mulher e pediu para trocar de quarto por não gostar do anterior. Depois deixou o novo quarto bagunçado e alegou ter deixado uma bomba ali para atingir muçulmanos. As autoridades realizaram buscas mas nada encontraram e o Ministério Público não deu sequência à investigação.
